"O Destruidor de Mundos!"
GODZILLA MINUS ZERO se passa dois anos após a guerra reduzir o Japão a zero e todos terem que reiniciar suas vidas. Agora, em 1949, o país finalmente conseguiu se recuperar e retomar sua vida cotidiana, mas a família Shikishima encontra uma nova ameaça capaz de provocar mais um estado de calamidade tão ruim quanto o anterior. Depois de um longo período tentando se agarrar a um pouco de esperança, toda uma nação vê ela ser esmagada em um instante. Sem possibilidade de retorno, dessa vez não terá terceira chance. Tudo termina aqui, independentemente dos resultados. O tempo será curto, mas determinante para decidir todo o futuro do país.
Os humanos já estão por aqui há pelo menos uns cinco mil anos. Somos criaturas que aprendem com o conhecimento que lhe és deixado por outras gerações. Se você parar para analisar friamente, já deveríamos ter aprendido que não podemos vier um ciclo eterno de violência contra nós mesmos. O diretor Takashi Yamazaki traz este questionamento em GODZILLA MINUS ZERO. O filme consegue balancear muito bem a ficção científica clássica que é sempre mais elevada nas continuações de todas as Eras do Godzilla com o estabelecido no primeiro filme de 2023. Se o primeiro filme faz um novo paralelo com o sofrimento causado pelo fim da Segunda Guerra Mundial e os ataques nucleares ao Japão e o sentimento de culpa e vergonha, aqui o dilema é se uma possível retribuição do que aconteceu é justa?
Neste filme temos a chegada do Rei Ghidorah na Terra. Sua origem clássica é mantida junto com todos os elementos clássicos da personagem. Seu aparecimento provoca a volta de Godzilla. Nesta volta de Godzilla nós descobrimos que quem teve algum contato físico com o monstro no filme acabou desenvolvendo uma mutação como efeito colateral (não tem como não fazer um paralelo com os sobreviventes dos ataques nucleares). Noriko Ōishi (Minami Hamabe) é uma das poucas que sobreviveu e ainda desenvolveu uma certa conexão com Godzilla (algo recorrente nos filmes). Os humanos não conseguem derrotar Ghidorah e agora planejam usar a conexão de Noriko para atrair Godzilla e fazer que ele enfrente o Kaiju alien. Mas isso abre um precedente já que temos um personagem que quer se vingar dos americanos e usar o próprio Godzilla para atacar os EUA.
Takashi Yamazaki faz uma resposta temática e até “visual” para OPPENHEIMER de Christopher Nolan. MINUS ZERO joga o debate na mesa com um questionamento que também serve para o próprio público japonês já que o filme se propõe a seguir um caminho pacifista que eu realmente não sei se aconteceria hoje. O Japão só está voltando agora a ter uma força militar. O país aceitou por décadas o golpe da segunda guerra mundial, mas é algo que pode ser questionado, vide que muitos jovens hoje nem se lembram mais do que aconteceu ou pior; até lembram, mas carregam uma visão totalmente alinhada com o posicionamento que levou o Japão até aquele destino.
Seguindo neste tema, é impossível não fazer um paralelo com Israel já que eles seguiram por este caminho. Um povo que outrora sofreu com o holocausto, hoje conduz um genocídio bárbaro contra os palestinos. É uma pergunta que só quem passou por isso pode propor. Na minha sessão tinham duas senhoras japonesas de uns setenta ou até oitenta e poucos anos. São claramente filhas ou netas de pessoas desta geração pós Segunda Guerra Mundial que vieram para Brasil nos anos 40 (sei disso porque elas comentavam o filme falando em japonês). Fiquei pensando como elas estavam absorvendo aquela história. É impossível ver um filme americano moderno - muito menos um Blockbuster – tocar nesses assuntos. MINUS ZERO coloca o dedo na ferida de forma interessante.
E mesmo sendo sério no tema, o filme consegue ser uma boa trama de Kaiju clássico com toda a parte mais "campy" envolvendo os monstros. MINUS ZERO é mais um espetáculo visual primoroso. Vi em uma sala boa de cinema, mas acho que o filme merece mesmo um IMAX. As cenas de luta são brutais e cada aparição deles tem um senso grandiosidade que é impressionante. A trilha sonora composta por Naori Sato dá o tom épico que esse filme precisa. O tema de Ghidorah é com certeza o melhor do ano e acho difícil uma outra trilha ser melhor (talvez só a de DUNA 3).
GODZILLA MINUS ZERO é mais um grande filme de um personagem que continua relevante até hoje. Em tempos de uma nova “Guerra Fria” e de um ciclo de violência eterno, o filme e seus temas são mais do que necessários.




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